Paisagem em Laboratório

Exposição de Bruno Côrte

Quando: 
7 de Novembro de 2020 a 29 de Novembro de 2020
Onde: 

Laboratório de Química Analítica | Museu Nacional de História Natural e da Ciência

The walking artist

Quando entramos no espaço da exposição do Laboratório de Química Analítica, deixamos de estar na sala para sermos levados para o ar livre, a paisagem é a base de pesquisa da exposição. Percorremos os caminhos que o artista Bruno Côrte fez na preparação da exposição Paisagem em laboratório onde o espaço não fica contido à sala, expande-se.  “A imensidão está em nós. Está presa a uma espécie de expansão do ser que a vida refreia, que a prudência detém, mas que volta de novo na solidão. Quando estamos imóveis, estamos além; sonhamos num mundo imenso. A imensidão é o movimento do homem imóvel. A imensidão é uma das características dinásticas do devaneio tranquilo.” (Gaston Bachelard, in: A Poética do Espaço).

A exposição Paisagem em laboratório começou a ser pensada nas visitas que o artista fez ao Jardim Botânico, na observação e posterior recolha de material para a execução dos seus objetos. A experiência da intrusão na natureza é a sua forma de fazer arte, onde o encontro, a descoberta da paisagem é processado de forma natural e integrada como se reflete na série de desenhos Atelier, técnica mista sobre papel de seda. Bruno Côrte passou para o papel esses objetos que quase parecem plantas, quase um jardim em papel dentro de uma estufa. O desenho Roseiral aparece suspenso a dar continuidade a esse desígnio.  O propósito de Bruno Côrte é a observação atenta e o seu projeto é aliar-se, fundir-se e compreender o que a natureza oferece em cada experiência para se apoderar e criar. Poderá ser adjectivado de walking artist como Hamish Fulton que considera o caminhar como uma forma de arte.

A série Paisagem, conjunto de 24 fotografias, foram captadas através de uma webcam onde quase diariamente o artista recolheu dezenas de imagens, acumulando e aponderando-se da mesma paisagem em vários momentos diferentes.

Esta transposição da paisagem para o Laboratório de Química Analítica pode parecer-nos improvável, mas se pensarmos no Jardim Botânico como parte integrante do museu e laboratório para o artista, já não o é. Como nos diz Bruno Côrte, “as tardes e manhãs passadas no Jardim Botânico a recolher plantas, em jeito de residência, foram a base do processo de todos os trabalhos.” Como se pode ver na instalação 54 Raízes, onde existe uma ligação directa com os frascos de laboratório.

A exposição coloca-nos perante situações de permanentes contágios, Bruno Côrte tem consistência entre o espaço real e irreal, a presença física dum espaço que muitas vezes evoca a transformação desse espaço durante um determinado tipo de acontecimento, como Cézanne tem sobre a natureza. “A arte é uma harmonia paralela à natureza. O que podemos pensar dos imbecis que dizem: o pintor é sempre inferior à 

Natureza? É paralelo a ela.” (…) A paisagem reflecte-se, humaniza-se, pensa-se em mim. Eu objectivo-a, projecto-a, fixo-a na minha tela (…) A minha tela, a paisagem, ambos exteriores a mim, mas uma caótica, fugidia, confusa, sem vida lógica, fora de toda a razão; a outra permanente, sensível, categorizada, a participar na modalidade, no drama das ideias…na sua individualidade” (Joaquim Gasquet, in: O que ele me disse). As peças Objetos e Quase objetos estão inseridos nessa linha de pensamento.

“A natureza recriada à nossa imagem e semelhança: nós dentro dela e ela polarizadora dos nossos sentimentos estéticos.” (Alberto Carneiro, in: Notas para Um Manifesto de Arte Ecológica).


Sofia Marçal
Curadora da exposição

 



Inauguração dia 6 de novembro, às 17h00.

Exposição de Arte e Ciência