Investigadores do MUHNAC descrevem nova espécie de mamífero

Investigadores do MUHNAC descrevem uma nova espécie de mamífero para a ciência, o Crocidura fingui, um musaranho da Ilha do Príncipe no Golfo da Guiné.

A ilha do Príncipe alberga uma biodiversidade única e bastante diversificada, com uma elevadíssima taxa de endemismos, ou seja, espécies que não ocorrem em mais lugar algum do mundo. A exploração e levantamento da fauna da ilha do Príncipe foi iniciada na segunda metade do século XIX pelo explorador naturalista Português Francisco Newton, que em missão para o então Museu Nacional de História Natural de Lisboa, fez diversas colheitas na região. Todas estas colheitas foram enviadas para o Museu, onde foram estudadas pelo seu director José Vicente Barbosa du Bocage, que viria a descrever várias espécies com base no material de Newton. Uma das espécies descritas por Bocage foi o musaranho de São Tomé (Crocidura thomensis), com base num exemplar colectado por Newton na ilha de São Tomé em 1886. No ano seguinte Newton enviaria uma nova remessa de exemplares da ilha do Príncipe, fazendo acompanhar uma carta (ainda hoje existente nos arquivos do MUHNAC) onde se podia ler o seguinte:

"...seis caixas contendo aves, reptis, insectos e e várias outras coisas. Vai um exemplar de um rato insectívoro que me parece novo ...".

Apesar da sugestão de Newton, Bocage viria a considerar que o musaranho do Príncipe seria o mesmo que aquele de São Tomé.  Esta interpretação manter-se-ia até aos anos 80 do século XX, altura em que investigadores Franceses, após análise de material proveniente das duas ilhas, concluíram que o musaranho do Príncipe não seria o mesmo do de São Tomé, mas sim uma população insular de uma espécie largamente distribuída por todo o golfo de Guiné, o musaranho de Fraser (Crocidura poensis). 

Em 2013, durante trabalhos de campo na ilha do Príncipe, Luis Ceríaco (Curador da Coleção de Herpetologia do MUHNAC) e Mariana Marques (Colaboradora científica do MUHNAC), colectam vários indivíduos do musaranho do Príncipe. Estes exemplares foram preparados pelo nosso taxidermista Pedro Andrade. Os espécimes colectados foram alvo de estudos morfológicos e moleculares, de forma a que a sua identidade taxonómica pudesse ser esclarecida. Amostras de tecido dos exemplares passaram a incorporar a Coleção de Tecidos e ADN do MUHNAC e dados genéticos foram produzidos sob a coordenação da Curadora da Coleção de Mamíferos do MUHNAC, Cristiane Bastos-Silveira.

Os dados morfológicos e moleculares gerados através do estudo destes exemplares foram então comparados com dezenas de exemplares de Crocidura poensis e Crocidura thomensis existentes nas coleções da California Academy of Sciences (San Francisco, EUA) e do Muséum national d'Histoire naturelle (Paris, França). Os resultados do estudo permitiram chegar à conclusão que o musaranho da ilha do Príncipe é uma espécie diferente daquelas até então sugeridas por outros autores. Embora morfologicamente muito semelhante ao musaranho de Fraser, o musaranho do Príncipe, batizado de Crocidura fingui, distingue-se claramente da sua espécie irmã ao nível molecular. Os autores afirmam ainda que o ancestral desta espécie terá colonizado a ilha 1.26 Milhões de Anos, muito antes da colonização humana da ilha.  Este estudo foi agora publicado na revista científica Mammalia (http://www.degruyter.com/view/j/mamm.ahead-of-print/mammalia-2014-0056/mammalia-2014-0056.xml?format=INT). Os três exemplares de Crocidura fingui que serviram de base para a descrição da espécie estão depositados na Coleções de Mamíferos do MUHNAC.

A descrição desta nova espécie da Ilha do Príncipe reforça a importância do estudo e levantamento da fauna mundial, ainda bastante desconhecida mas cada vez sob maior ameaça, bem como é um claro exemplo do papel fundamental dos museus e das coleções de história natural para o conhecimento e preservação da biodiversidade. Investigadores do MUHNAC continuam a desenvolver vários estudos na Ilha, em colaboração com as autoridades regionais, sendo esperadas várias descobertas e novidades nos próximos anos.

 

Notícia publicada no Jornal Público, no dia 6 de abril.